Fórmula Semi-Empírica da Energia de Ligação
Com o passar do tempo e na ausência de uma teoria detalhada
para descrever a estrutura nuclear, vários modelos foram
desenvolvidos, cada qual correlacionando os dados experimentais
de um conjunto mais ou menos limitado de fenômenos nucleares.
Entre os modelos formulados estão o modelo de gás de Fermi,
o modelo uniforme, o modelo de partícula a,
o modelo da gota líquida e o modelo nuclear de camadas.
Com o modelo da gota líquida foi desenvolvida a seguinte
fórmula semi-empírica para o cálculo da energia de ligação
nuclear:
E = av A - ac Z ( Z
- 1 ) A-1/3
- as A2/3
- ar ( A -
2Z )2 A-1 + api
A-1
onde um dos possíveis conjuntos de valores (em MeV) para as
constantes av, ac, as, ar e api, obtidos por ajustes de curvas
experimentais, é o seguinte.
av = 14,0
ac = 0,584
as = 13,1
ar = 19,4
api = 135 d
com d = +1 para núcleos par-par (Z
par e N par), d = 0 para núcleos
par-ímpar (Z par e N ímpar ou Z ímpar e N par) e
d = -1
para núcleos ímpar-ímpar (Z ímpar e N ímpar).
O primeiro termo do lado direto da expressão dada
corresponde ao termo de volume, proporcional ao número de
núcleons A, e está associado ao fato de ser mais ou menos
constante a energia de ligação por núcleon ou, o que dá no
mesmo, ao fato de que cada núcleon interage apenas com um número
limitado e fixo de outros núcleons.
O segundo termo corresponde ao termo coulombiano, associado
à repulsão eletrostática entre os prótons do núcleo, e aparece
com o sinal negativo porque o efeito de repulsão tende a
diminuir a energia de ligação.
Como os prótons interagem aos pares, esse termo é
proporcional ao número de pares de prótons do núcleo, Z ( Z
- 1 ), e como a interação é tanto
menor quanto maior a distância entre os prótons, esse termo é
inversamente proporcional ao raio do núcleo, ou seja,
inversamente proporcional a A1/3.
O terceiro termo corresponde ao termo de superfície e está
associado ao número de núcleons da superfície do núcleo. Se os
núcleons do interior do núcleo interagem com um dado número de
outros núcleons, os núcleons da superfície interagem, em média,
com a metade desse número.
Como se considerou, no primeiro termo, que todos os
núcleons interagem com igual número de outros núcleons, deve-se
descontar um termo proporcional ao número de núcleons da
superfície ou à área da superfície, ou seja, ao quadrado do
raio, A2/3.
O quarto termo corresponde ao termo de simetria. Para um
dado valor de A, existe um valor de Z que corresponde ao núcleo
mais estável.
Para núcleos pequenos, onde o efeito da repulsão
coulombiana é pequeno, esse valor é Z = A / 2 ou 2Z = A. Assim,
na ausência da repulsão coulombiana, valores de A diferentes de
2Z levam a menor estabilidade, ou seja, a um valor menor para a
energia de ligação nuclear e esse efeito é representado, então,
por ( A - 2Z )2.
O quadrado serve para garantir que tanto e excesso de
nêutrons quanto o excesso de prótons levem a uma menor
estabilidade.
E como esse efeito deve ser cada vez menor com o aumento do
tamanho do núcleo, ele deve ser inversamente proporcional ao
número de núcleons, ou seja, inversamente proporcional a A
Finalmente, o quinto e último termo, corresponde ao
seguinte efeito. Dos núcleos estáveis, aqueles com número par de
prótons ou com número par de nêutrons são os mais abundantes e,
presumivelmente, os mais estáveis. Núcleos com número ímpar de
prótons ou com número ímpar de nêutrons são os menos estáveis.
Decaimento b
A fórmula semi-empírica da energia de ligação nuclear
permite, entre outras coisas, a discussão da estabilidade dos
núcleos isóbaros e do decaimento b.
Como primeiro exemplo, sejam os seguintes núcleos isóbaros
com número de massa A = 73 (ímpar): zinco, gálio, germânio,
arsênico e selênio, cujas energias de ligação (em MeV) aparecem
na tabela a seguir. Nessa tabela aparecem, também, os
correspondentes valores absolutos (em MeV) dos vários termos da
fórmula semi-empírica da energia de ligação.
| Elemento
|
73Zn30
|
73Ga31
|
73Ge32
|
73As33
|
73Se34
|
| av A |
1022,000
|
1022,000
|
1022,000
|
1022,000
|
1022,000
|
| ac Z ( Z
- 1 ) A-1/3
|
121,579
|
129,964
|
138,628
|
147,572
|
156,795
|
| as A2/3
|
228,818
|
228,818
|
228,818
|
228,818
|
228,818
|
| ar ( A
- 2Z ) 2 A-1
|
44,912
|
32,156
|
21,526
|
13,022
|
6,644
|
| api A-1
|
0,000
|
0,000
|
0,000
|
0,000
|
0,000
|
| E |
626,691
|
631,062
|
633,028
|
632,588
|
629,743
|
O gráfico da energia de ligação em função de Z é uma
parábola. O núcleo de germânio 73 é o mais estável porque tem a
maior energia de ligação e aparece mais próximo do vértice da
parábola.

Os isóbaros com número atômico menor que o número atômico
do isóbaro mais estável (ramo esquerdo) decaem por emissão de um
elétron (decaimento b-):
73Zn 30
73Ga 31 73Ge 32
(estável)
Em termos dos núcleons, o decaimento b-
é a transformação de um nêutron num próton, com a emissão de um
elétron e um antineutrino:
n  p + e -
+ n*
Analogamente, os isóbaros com número atômico maior que o
número atômico do isóbaro mais estável (ramo direito) decaem por
emissão de um pósitron (decaimento b+)
ou por captura K ou por ambos:
73Se 34
73As 33 73Ge 32
(estável)
Em termos dos núcleons, o decaimento b+
é a transformação de um próton num nêutron, com a emissão de um
pósitron e um neutrino:
p  n + e +
+ n
A captura eletrônica é a captura, pelo núcleo atômico, de
um elétron orbital. Se um elétron da camada K é capturado, o
processo é chamado captura K. Elétrons de outras camadas podem
ser capturados, mas com probabilidades menores.
Em termos elementares, a captura eletrônica fica:
p + e -
 n + n
Para isóbaros com número de massa A par, a discussão é um
pouco diferente por causa do termo par-ímpar da fórmula
semi-empírica da energia de igação. Esse termo é positivo para
núcleos par-par e negativo para núcleos ímpar-ímpar, de modo que
existem duas parábolas.
Como exemplo, sejam os seguintes núcleos isóbaros com A =
64 (par): cobalto,níquel, cobre, zinco e gálio, cujas energias
de ligação (em MeV) aparecem na tabela a seguir. Nessa tabela
aparecem, também, os correspondentes valores absolutos (em Mev)
dos vários termos da fórmula semi-empírica da energia de
ligação.
| Elemento
|
64Co27
|
64Ni28
|
64Cu29
|
64Zn30
|
64Ga31
|
| av A |
896,000
|
896,000
|
896,000
|
896,000
|
896,000
|
| ac Z ( Z
- 1 ) A-1/3
|
102,492
|
110,376
|
118,552
|
127,020
|
140,306
|
| as A2/3
|
209,600
|
209,600
|
209,600
|
209,600
|
209,600
|
| ar ( A
- 2Z ) 2 A-1
|
30,313
|
19,400
|
10,913
|
4,850
|
1,213
|
| api A-1
|
(-)
2,109 |
(+)
2,109 |
(-)
2,109 |
(+)
2,109 |
(-)
2,109 |
| E |
551,486
|
558,733
|
554,826
|
556,639
|
542,772
|
Os gráficos da energia de ligação em função de Z são duas
parábolas. A parábola inferior corresponde aos núcleos
ímpar-ímpar e a parábola superior, aos núcleos par-par.

Portanto, os primeiros são instáveis em relação aos
segundos.
Pela curva correspondente aos núcleos par-par pode-se
observar que existem dois isóbaros estáveis com números atômicos
diferindo por duas unidades.
Os núcleos com Z menor do que o Z do estado mais estável
decaem por emissão de elétron (decaimento b-)
e os núcleos com Z maior que o Z de um dos núcleos mais estáveis
decaem por emissão de pósitron (decaimento b+),
captura K ou ambos.
O isóbaro mais próximo do vértice da parábola ímpar-ímpar
(o núcleo de cobre) pode decair por b-,
b+
ou captura K.
Física Nuclear
|